Na obra de Rodrigo Braga, pés plotados, sem sentido, grudados uns aos outros, corporificam uma imobilidade angustiante incompatível com a aceleração contemporânea. A potência retirada revela nossa nulidade, nossa incapacidade em solucionar a condição de abandono a que fomos pregados. Há nitidamente aqui uma preocupação social e existencial banhada por um rigor estético que, longe de engessar a obra, confere a ela uma carga maior de expressividade.

Nas fotografias Unha e carne, da série Cartas ao vizinho, está estampado o sofrimento do homem-gameta, que deve o tempo inteiro velozmente se agregar a algum óvulo mundano para fecundar qualquer coisa que sirva o sistema. E servir ao sistema parece cada vez mais ser sinônimo de desagradar a si, produzir matérias e situações não pertencentes ao próprio indivíduo. A velocidade só é válida quando aplicada ao senso prático, mas a existência é lenta, custa a ser, e mover-se com os pés da idiossincrasia é quase sempre torturar-se um pouco.

Guto Melo