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Como um bricoleur, Rodrigo Braga
se apropria de imagens fotográficas analógicas para posteriormente
manipulá-las digitalmente, dessacralizando, assim, a imagem como
na tradição da fotomontagem. Nesse sentido, a série
Unha e Carne constitui-se de fotografias de pés que se fundem absurdamente,
remetendo a algum tipo de anomalia congênita.
A falta de referentes com o mundo
exterior apresentada por essas imagens traz, portanto, um imbrincamento
e uma relação simbiótica com a fotografia analógica,
de modo que os desdobramentos da manipulação digital a partir
de softwares de edição de imagens mostram-se não
apenas como uma possibilidade a ser explorada em termos de material, porém
como uma ampliação dos limites do olhar e do imaginário
humano.
O fato de terem sido digitalmente
manipuladas não as diferencia das fotomontagens tradicionais; essas
manipulações sejam em estado bruto - feitas diretamente
sobre a foto – ou através de softwares, submetem as fotografias
a sofrerem uma transgressão que as desloca de sua condição
de signos indiciais.
Ora, se uma das condições
essenciais da fotografia é a relação de contigüidade
física com seu referente, o que acaba por ocasionar uma fragmentação
do espaço/tempo e por determinar sua singularidade e seu atestado
de veracidade, vemos nas fotomontagens que o referente se transforma e
se associa a outros referentes, transmutando-se num signo indicial atemporal.
É nesse sentido, que o
processo de transformação que ocorre na série Unha
e Carne, mostra uma realidade que de fato não ocorreu: os pés
foram captados pelo dispositivo fotográfico, mas nunca estiveram
na condição em que estão, pois essa realidade só
foi possível após a montagem.
Por outro lado, o intrigante
jogo da manipulação de imagens indiciais revela a intenção
do artista e do aparelho fotográfico, que se verifica antes mesmo
da manipulação, pois uma das intenções do
artista ao fotografar é a de decodificar em forma de imagens, conceitos
que povoam o seu imaginário. Entretanto, o dispositivo fotográfico
como aparelho, sofre limitações técnicas que estão
inscritas em seu programa. Diante desses empecilhos surge uma dialogia
o homem e a máquina, propiciando uma singular relação
de auxílio e confronto, cuja obra de Rodrigo Braga é exemplar.
Verificamos assim, que o universo
Ludens e imaterial que Unha e Carne busca - a partir do ensandecido olhar
imaginário -, subverte a lógica fotográfica.
Eduardo Romero Lopes Barbosa
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