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Na solitude, qualquer coisa viva é bem-vinda. A pele sabe porque
sofre o incômodo de uma carne ranzinza, que teima em não
queimar. Um risco de dor, angústia, medo ou sonho. Um modo de escapar,
ainda que orientado por uma luz rala, fadada a se apagar. Uma prótese-fósforo
forjada como uma ilusão sincera, feita para parir instantes mortais.
Na solitude, o acesso à memória é um castigo indesejável;
o corpo, simultaneamente um motivo de fuga e uma via de retorno para amparo
próprio.
As manifestações
de luz sobre os objetos se modificam a cada segundo. A apreensão
da realidade também. E nessa mutabilidade incessante mora o desassossego.
E procuramos negar, esquecer, omitir para manipular sensações
destemperadas. Entortar o que nos quer aniquilar e erigir um corpo não-capturado.
Por isso, estão aqui - para os olhos de quem quiser ver - fotografias
digitais do conflito em caráter não-indicial. É o
artista a dizer: é possível fingir tudo, mas há qualquer
coisa de verdade no fingimento.
Guto Melo
Para o Projéteis de Arte Contemporânea, FUNARTE – RJ
2004/2005
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