Rodrigo Braga: Identidade e Transfiguração

Numa espécie de revisão do mito de Narciso, em vez de admirar a própria beleza num espelho d’água, o artista mergulha a cabeça na terra, símbolo de vida e morte, até não poder mais se ver como um duplo de si, mas como um outro.

Esse gesto garante, ao mesmo tempo, que o artista não se perca na ilusão da autocontemplação e se transfigure, ao emergir, em seres híbridos, fabulosos, meio animais, meio humanos.

A afirmação da identidade, da complexidade interior, dos desvãos entre o ser e o querer ser, raramente consegue desorganizar a superfície ilusória e estetizante dos retratos que colecionamos vida afora. Tanto que, como diz Peggy Phelan, “para nos reconhecermos num retrato – ou num espelho –, imitamos a imagem que imaginamos que os outros enxergam em nós”.

A obra de Rodrigo Braga, apesar de recente, faz emergir de forma contundente os dramas da auto-representação. Nela, o artista especula sobre a possibilidade de se dissolver no outro, ironicamente animais com os quais o homem se alimenta, para que sua própria identidade ressurja em personagens mitológicos.

Filho de biólogos e ávido pela expressão artística desde criança, Braga utiliza a intimidade com a representação e com os animais como via de acesso a dramas existenciais e pessoais. A busca do autoconhecimento implica  necessariamente em dor e em furiosos embates internos. É preciso correr o “risco do desassossego” para um dia vislumbrar o “prazer solene”.

Seu universo onírico, porém, ultrapassa essas questões e envereda pelas referências do garoto que desenhava nos bancos escolares: os seres resultantes de suas performances parecem pertencer a fábulas infantis ou aos contos fantásticos da literatura de cordel de Pernambuco, onde o artista vive.

O regional se universaliza nesse embate pela auto-representação que, ao mesmo tempo que atesta uma presença no mundo, cria um ponto de vista livre e poético sobre este e outros mundos imaginados.

 

Eder Chiodetto
Curador