Dos bastidores de um auto-retrato


Não sei ser do tipo de artista que trabalha com o que dispõe ou que parte de uma matéria ou escolhe um suporte para executar um trabalho. Em geral, a idéia é quem pede o meio, o material, o suporte ou a técnica que vou utilizar e, então, me debruço sobre as necessidades e tento conseguir a todo custo. Assim ocorreu em séries anteriores como Ornamentos para o Corpo, Unha e Carne e Cartas ao Vizinho, onde o corpo e as questões que estão em seu perímetro são recorrentes. A angustiante incomunicabilidade e impotência do indivíduo diante da coletividade sempre foram objeto de minhas pesquisas que, vez por outra, cai nas brechas da psicologia, da sociologia e até mesmo da política.

No trabalho apresentado aqui, pela primeira vez em minha prática artística, resolvi partir de uma mídia específica para desenvolver um conceito.

A idéia inicial era fazer uso da tecnologia de manipulação de imagem digital (que já havia lançado mão em uma série anterior) para produzir algo que estivesse dentro da minha poética e ao mesmo tempo contemplasse essa técnica em todo o seu potencial. Eu me incomodava com o fato dos recursos digitais estarem sendo associados à fotografia apenas como um incremento formal à imagem captada pela lente, ou mesmo apenas como uma exagerada sucessão de aplicações de efeitos que meramente reconstituem a tradição pictórica, e tudo aquilo que o lápis ou o pincel já fazem tão bem há séculos. Queria, portanto, algo que operasse pelo quase imperceptível. Que subvertesse o caráter indicial da fotografia e deixasse o espectador tonto, flutuando entre o virtual e o palpável. Tinha a vontade de gerar não o surrealismo típico de uma montagem fotográfica mas, sim, “fabricar” em ambiente gráfico digital uma “realidade” que, de qualquer forma, pudesse ter ocorrido em verdade, pela habilidade manual humana.

Propositalmente, formatei meu projeto de maneira que me conduzisse a uma pesquisa também, de certa forma, de aspecto acadêmico, que me levasse a realizar um apanhado iconográfico, que me instigasse a ler e me impulsionasse a escrever e a falar sobre minha realização plástica. Para me ajudar nesse processo que, por ser novo para mim, tornava-se complexo, convidei para ser minha orientadora direta a professora Maria do Carmo Nino (que havia sido minha professora na UFPE e também havia escrito sobre alguns dos meus trabalhos anteriores). A escolha de Maria não foi apenas pela afinidade profissional e pessoal, mas, sobretudo, pela sua experiência artística em fotografia e manipulação da imagem.

Na verdade, os primeiros nove meses depois do início da bolsa foram tomados pela realização dos cursos de Photoshop Profissional com Digitalização e Cromia de Imagens, pelo processo de aquisição dos equipamentos, pela pesquisa de imagens, e sobretudo pela leitura e fichamento da bibliografia sugerida pela minha orientadora, somada a outros livros, periódicos e sites visitados durante o processo.

Enfim, depois de devidamente instrumentalizado, executei Risco de Desassossego, série de quatorze fotografias que, apesar da importância, não foram escolhidas para serem exibidas no MAC.

Apenas em março de 2004 consegui solucionar o que já estava em minha mente, de forma fragmentada, havia algum tempo. Surgia Fantasia de Compensação, trabalho que levaria mais nove meses para chegar ao resultado final.

Fantasia de Compensação, apresentado no MAC como resultado da minha pesquisa do prêmio/bolsa, é não somente meu mais recente trabalho, como também o mais significativo de minha produção. Hoje o percebo como algo que vai além da obra acabada, para mim é como o desenrolar de uma catarse, uma vez que é um auto-retrato e envolve questões psicológicas que me são caras.

Dois acontecimentos (dentre tantos outros menores que se acumulam em minha mente todos os dias) foram especialmente importantes para o surgimento, quase que de súbito, da imagem zoomórfica com intenção antropofágica da fusão da minha cabeça com a de um rottweiler.

Três meses antes do surgimento da idéia, eu havia ajudado no dissecamento de um bode no sertão da Paraíba. Tendo sido sacrificado por um homem que teve que se ausentar, a carcaça do animal foi entregue a uma mulher para ser limpa e tratada. Contudo, ela não tinha forças suficientes para partir os principais ossos do animal. Como só havia eu de homem (e teoricamente mais forte) no local, ela me deu um facão e um martelo para que eu fizesse a tarefa. Titubeei, pois já estava um pouco chocado com as imagens de vísceras, mucosas e pêlos ensangüentados que via em minha frente. Não tinha certeza se eu, ser tão urbano, seria capaz de tal despojamento antes de comer aquilo tudo à mesa... Mas fiz. E muito ficou guardada em minha mente a imagem da separação entre o crânio e o focinho do animal.

A outra experiência se passou onze anos antes. Lembro-me com vários detalhes de um episódio que me marcou muito na época (e até hoje), durante o auge de uma fobia-social que me acompanhou por toda a adolescência, no auge de uma síndrome do pânico, em um momento que eu estava com uma sensibilidade absurda. Aos 17 anos, quando caminhava por uma avenida por volta das sete horas da manhã para pegar o ônibus que tomava todos os dias para ir ao colégio, me deparei com um cachorro muito magro, sarnento, bastante doente. Ele se tremia enquanto tentava ficar de pé. Assim que cruzamos olhares, caí no choro no meio da rua. Achava absurdo o que estava acontecendo comigo, mas também não conseguia me controlar. Esbocei voltar para casa, tentei seguir adiante e fui chorando e suando ainda no ônibus. Tinha muito medo que as pessoas me notassem doente como aquele cachorro. Finalmente consegui entrar na escola, no entanto permaneci calado (aliás, como todos os dias). Aquilo me perturbou a semana toda. A partir desse dia decidi procurar mais ajuda da minha família e de um tratamento psicológico.

Hoje vejo que tive identificação imediata com aquele animal. Eu me reconheci nele. Depois de curado, tanto tempo depois desse episódio, ainda não me vejo como um rottweiler mas às vezes acho que precisaria ser... Gostaria de intensificar esse meu lado mais masculino e afirmativo, não de forma violenta, mas um pouco mais corajosa e confiante. De qualquer forma, passei de um ser que se sentia completamente inútil e insignificante no mundo a alguém que atua e se sente parte desse coletivo tão complexo.

Bem, somadas essas partes à possibilidade da ferramenta e da técnica digital que tinha em mãos, parti para a execução. No entanto, o processo foi ainda mais árduo, demorado e mais rico do que supunha.

A primeira coisa que fiz foi tirar um molde da minha cabeça para auxiliar a feitura da obra. Já careca, passei um dia na UFPE, deitado numa mesa enquanto dois professores faziam o delicado trabalho de confecção de uma fôrma de gesso que seria utilizada para a construção de uma réplica da minha cabeça em silicone. Mas a maior dificuldade que encontrei ocorreu na segunda etapa da execução do projeto, quando tentei conseguir o corpo de um cão de grande porte para ser manipulado cirurgicamente. Depois de dois meses de negociações com veterinários particulares, Universidades Rural e Federal e o Centro de Vigilância Ambiental da Prefeitura do Recife e depois de obter as devidas documentações e autorizações, consegui o que queria: um cachorro grande, preto, com focinho protuberante e ar bravio. Sofri, no entanto, um baque psicológico inesperado. Assim que escolhi a dedo o animal que seria eutanasiado no dia seguinte (como parte de um procedimento habitual) e me seria entregue para a realização do trabalho, caí numa armadilha do inconsciente, adoecendo em poucas horas. Tive uma forte dor de cabeça, náuseas e febre por dois dias. Cancelei tudo. Só retomei o trabalho na semana seguinte, quando finalmente consegui levar a carcaça do cachorro já com a ajuda do veterinário cirurgião.

O processo cirúrgico, por sua vez, durou seis horas. Tive a sorte de contar com os serviços de um veterinário extremamente cuidadoso, que soube executar com precisão tudo o que havia esboçado previamente. As partes da cabeça do cão foram montadas sobre a cabeça de borracha. Registrei todos os passos da cirurgia com uma câmera fotográfica.

A etapa seguinte da execução prática da obra foi também muito minuciosa. As fotografias da minha cabeça tiveram que ser tomadas nos mesmos ângulos que captei quando da cirurgia no molde. As fotos foram realizadas com muita paciência e exatidão por Marcos Costa - artista e parceiro de exposições.

Depois de ter todos os elementos necessários, precisava apenas alinhavar as partes. No plano de execução final levei cerca de 40 dias fazendo a sobreposição das fotos e acabamento no Photoshop. Depois de tudo, percebi que o processo de feitura do trabalho tomou uma dimensão tão grande que a execução técnica da obra havia se tornado mais plástica e manual que tecnológica. Até mesmo porque os recursos do programa gráfico foram utilizados (como um professor costumava dizer) de forma “artesanal”, sem se valer da aplicação de efeitos pré-existentes.

Por todos estes motivos considero Fantasia de Compensação o trabalho mais representativo que fiz até então. E sei que isto se deve à rara oportunidade de se ter uma bolsa de pesquisa deste tipo, que acredite e potencialize uma idéia artística possibilitando um debruçamento quase que exclusivo do artista à sua poética, fornecendo-o recursos financeiros e tempo suficiente para que esse processo amadureça. Depois de tudo pronto, observo que, apesar de ser uma obra de cunho autobiográfico, eu não teria a menor condição de realizar algo dessa dimensão sozinho. Hoje me contraponho à fácil ação de isolamento da minha adolescência e aposto na comunicação e na coletividade para gerar resultados de uma idéia que foi construída com a soma de muitas mãos e cabeças.

Rodrigo Braga
Janeiro de 2005